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detectores de metais... a culpa é do indiana


"é na lapa da caldeira, tem lá um buraco escavado na rocha. eu acho que é um lagar dos mouros"
Desenhou-me no chão de terra batida do seu quintal uma estrutura semi-circular. Como desconfiei tratar-se de um silo, no dia seguinte lá estava no alto da Rãs, como combinado, para ir visitar a tal lapa.

Furámos por entre os tojos e as giestas altas e cheias de carraças, visitamos o abrigo formado por uma grande pala (curiosamente terá sido escolhido para refúgio nas invasões francesas); pulamos mais uns calhaus e lá chegamos.



De facto o grande calhau de granito quase parece uma caldeira ao lume do ventre quente de fevereiro. dentro da caldeira gigante de pedra uma estrutura (ver 1ª foto) que bem pode ser um silo... que se entranha para o ventre do penedo.
De que época? não me atrevo a responder, mas pelo enquadramento dos vales largos e bem rochosos da ribeira do Coja com nascente a poucos quilómetros, em zona de transição para planalto beirão, com o abrigo na rocha próximo, é possível que seja bem antiguinho.
É provável que a estrutura servisse para armazenar bens de consumo, talvez de comunidades que vivessem mais da pastorícia. a paisagem envolvente sugere isso.

"no outro dia estivemos cá com um detector de metais" diz o meu guia, "mas não apitou". pulo em cima da caldeira de pedra e defendo-a aos 4 ventos.

"e se tivesse apitado?"

"tinhamos escavado tudo"

"vocês têm noção que se o tivessem escavado, esta preciosidade que viveu oculta durante milénios, seria mais um buraco vazio de significado... ainda para mais sendo desta natureza, desta tipologia, com esta cronologia... no planalto beirão(?!). não os há para aí aos pontapés! ( e mesmo que houvesse)"
- suspiro-
"registar devidamente o que encontra lá dentro, estará muito possivelmente intacto, estará in situ, pode abrir as portas para um conhecimento de uma parte de nós mesmos que está no escuro."

o meu guia apenas ri.

Que fazer? Como divulgar o património ao mesmo tempo que o valorizamos? Como se valoriza à SÉRIA o património? É fazendo-o sair do anonimato que o protege? Qual será o impacto de tal acto? Não estaremos a expô-lo sem pensar nas consequências?
De que vale se não tivermos todos nós vontade de lhe dar valor? E só se dá valor ao que se conhece...

Receio que daqui a 50 anos possámos ter perdido o nosso "heritage" pela avidez de riqueza, por vontades e por pilhagens, que aliás se repetem um pouco por todo o nosso querido país... dane-se o indiana jones!

3 comentários:

Alexandre disse...

publicando mais. publicando ainda mais - não só para os colegas, mas para os miudos das escolas.

hugobaptista disse...

parabéns pelo trabalho e resultados que nos abrem mais portas para o estudo do Passado neste território.

AC disse...

Alexandre,
concordo com a necessidade de publicação cientifica, sem ela acresce a dificuldade em criar conhecimento. mas não é isso que mais me preocupa. esse conhecimento de nada serve se não for devidamente tratado para ser compreendido pelo publico em geral, se não for democratizado... ou então que andamos aqui a fazer? para que serve isto?
concordo que se publique para miudos, ainda vão a tempo... ainda estão em bruto. era bem bom ter uns quantos livros ilustrados (em português)sobre várias épocas para crianças desde os 3 anos de idade e já agora também para os professores primários. isso e mais...
mas e os adultos? não estarão irremediavelmente perdidos? (e os políticos?) ainda assim os mais velhos, principlamente os reformados, vão ouvindo todos os dias no "Portugal em directo" da RTP 1 e quase numa base diária vão conhecendo estruturas arqueológicas. quando ando em recolha oral ouço sempre falar de uma descoberta :D
bjs

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